14 de jul de 2018

CARTAS ABERTAS AO DESEJO, cinco

Ana, querida,

Começo a escrever esta carta aqui do teu lado, porque finalmente nos encontramos. Vamos nos colocar a fechar este trabalho, que na verdade é um começo, um abrir. Foi bonito a sincronia de você chegar para a festa junina da escola do Joaquim, nosso companheiro de alguns encontros, meu filho amado. Chamo de sincronia porque você vem falando do elemento fogo em suas cartas. Andamos pela escola segurando lanternas acesas com ele, o fogo.

foto CAMILA ZANETTI

foto CAMILA ZANETTI


Nesta escola experimento um movimento de rede. Seguimos a pedagogia Waldorf, criada por Rudolf Steiner, o mesmo criador da Antroposofia. Isto implica a participação direta dos pais e estamos estruturando uma associação para mantermos a escola. Fazemos horta, estamos próximos no dia a dia. É um esforço. Um esforço em que o resultado é sempre mais recompensador que o trabalho, ainda assim, a configuração de rede necessária para concretizar este sonho coletivo é um aprendizado tamanho, especialmente para nós, pais e professores vindos de uma educação formal. Muitos de nós desistiu neste caminho de 4 anos, outros entraram dando um novo fôlego a esta ideia, que compreendemos não ser apenas uma ação específica para nossas crianças, mas a criação de uma nova consciência para este lugar em que vivemos. Estamos em ação e é claro que a cada nova escola criada, há uma revisão e uma atualização do que se pensou um dia.

Steiner estudou a evolução da medicina, da filosofia e de outras ciências para criar a antroposofia.  Uma das partes que me interessa entender é sobre os temperamentos, porque ele admite as diferenças entre as pessoas e isso me dá uma visão mais democrática da composição da rede, de conexões possíveis e diferenciadas pra cada indivíduo e cada papel que exercemos nas redes em que atuamos. Encontrei uma dissertação da Sandra Regina Kuka Mutarelli, "Os quatro temperamentos na antroposofia de Rudolf Steiner" e vou pontuar aqui algumas coisas que apreendi da leitura.  A começar pelos tipos de temperamento, suas características e forma de interação:

- colérico, quando a força interna e externa é intensa, e precisa da força da autoridade para se sentir menos responsável por tudo.
- o fleumático  quando, ao contrário do colérico, demonstra uma apatia tanto exterior quanto internamente e precisa do contato com o outro para ter interesse pelo mundo através do interesse do alheio.
- o melancólico quando sente tanto e borbulha internamente, com dificuldade de se expor e interagir com o mundo exterior, e por isso pode ser apresentado às dores do mundo para não se sentir sozinho, criar vínculo e sair de seu universo particular.
- o sanguíneo, quando está estimulado com as novidades, vive no externo e tem dificuldade de concentração e interiorização.  É possível entender suas preferências e mostrar aos poucos conteúdos relacionados a elas, em doses homeopáticas para que o seu interesse se aprofunde através da curiosidade.

É claro que não somos um rótulo. Steiner mesmo coloca que temos todos os temperamentos, e alguns deles se manifestam com maior força em cada pessoa. Se a gente pensar na vida contemporânea que nos exige tantas identidades diferentes (como propõe Stuart Hall no seu livro Identidade e diferença),  então é possível dizer que somos mais estimulados a experimentar temperamentos diversos daquele que é dominante na gente. O que você acha disso, Ana?

Esta divisão dos temperamentos Steiner buscou de estudiosos clássicos, como Galeno, que  associava os temperamentos aos quatro elementos:

- Colérico: fogo
- Melancólico: terra
- Sanguíneo: ar
- Fleumático: água

Aqui em Bonito estamos rodeadas por forças concentradas daquilo que nos compõe e nos é essencial. Uma "força estranha", minha música favorita do Caetano. É incrível como muitas vezes o pensamento excessivo e imóvel nos afasta destas conexões, e a dança tem o poder de trazer sentido ao que buscamos.. Aqui experimentamos movimentos inspirados nestes temperamentos em conexão direta com seus elementos fundamentais:

- na terra uma potência interna com movimento mais contido. Você se queixou deste estado, encontrou um sofrimento ali, mas como foi bonito o que produziu! Para mim, este elemento e este estado é um conforto... acho que sou mais melancólica.

- no ar uma soltura, uma brincadeira com o que o corpo pode ser, e logo outra coisa nova, um pontuar e chacoalhar e voar depois voltar e pousar uma borboleta e para para fotografar. Veja como entramos nas frequências dos temperamentos, às vezes até sem perceber.

- na água um fluir, uma reação ao que nos envolve, um mover passivo e se não é, se perde o fôlego quanto mais se luta contra a corrente. É difícil não se deixar envolver, e fomos unânimes na apreciação da água, por mais gelada que estivesse.. As fotos que tiramos refletem esta profundidade, esta intimidade com um grande útero rio.

- no fogo uma liberação de intensidades, velocidade incessante de expressão, de pensamento, de vida e morte e vira e continua. Esta cólera, tão própria de você, eu conheço bem - mas só visito de vez em quando.

Escolhemos batizar nossos encontros e trabalho de Cartas abertas ao desejo. Minha primeira reação com a palavra 'desejo' foi uma grande dúvida. Lembro de uma aula de yoga em que a professora falou sobre como o desejo nos afasta daquilo que que almejamos; é uma fabricação do ego, uma falta de presença, um pensar em algo que não está aqui, não é. Tenho mania de concordar com muito (não tudo, muito). O que ela disse ressoou em mim, e entendo que quando estamos a dançar, a presença é ouro.

Acontece também que estamos falando sobre o que nos faz sair do nosso estado de conforto a nos mover e a buscar conexões, o que nos faz querer, e insistir, e muitas vezes, resistir. O desejo existe, e podemos sim nos apegar a ele para chegar até a roda. E gentilmente nos despedimos dele quando a música começa, quando damos as mãos aos mais diversos temperamentos e olhamos nos olhos de todos presentes. Presentes. Presença.

Obrigada por ter vindo. Por estarmos aqui (e você já se foi e eu continuo a escrever). O Joaquim agora pergunta de você. Respiramos o mesmo ar, pisamos o chão que nos deu impulso, mergulhamos a água calcárea, produzimos calor com o nosso movimento, inquietude na pousada tranquila. E logo logo estaremos juntas a compartilhar um pouco dessa nossa experiência.

Com amor,

Paula.

15 de jun de 2018

CARTAS ABERTAS AO DESEJO, quatro.



13/06/18 (mas poderiam ser várias outras datas em que ensaiei terminar esta carta e não terminei)
Querida Paula,
A quanto tempo não lhe escrevo...  Este hiato me fez recordar como as cartas demandam atenção, cuidado e dedicação. Curioso... um tempo dedicado a nós mesmos e ao outro, que fomos perdendo com a velocidade enlouquecedora das novas tecnologias. Temos perdido o tempo de degustar, de apreciar, de criarmos empatia e intimidade. Ou seja: temos perdido o tempo de amar. Já não sei se esta é uma fala de uma precoce avó, que nem filhos teve, com a única função de manchar com tinta nostálgica e cheiro de mofo este papel branco, para deixá-lo em tom sépia. Ou se, do contrário, ainda mantenho alguma jovialidade com pitadas de lucidez criativa e afetiva que me façam querer crer na possibilidade de atualizar este mundo datilográfico, sem perder a capacidade de olhar para os detalhes e aprofundar-me nas relações com alguma intensidade.
A vida e seus atravessamentos às vezes nos afogam em turbilhões... Daí as questões são tantas e tão urgentes que precisamos de silêncio para ver os fragmentos se reunirem novamente e pensarmos qual o fluxo seguir neste momento. É preciso meditar, deixar os pensamentos irem e voltarem. Sentei aproximadamente nove vezes para escrever esta carta e os parágrafos pareciam não se alinhar. Até que pensei no próprio desalinhamento da vida e das inexatidões que nos compõem, como você mesmo colocou na última carta sobre sua experiência acerca do Corpomancia. Também lembrei do que você havia dito sobre a confiança nas possibilidades que podemos construir e decidi confiar no  risco e embrenhar-me na escrita final desta carta sobre a qual não espere nenhuma lógica linear. Pois bem, estas linhas são bem mais um emaranhado de questões, conexões, redes. Como esta planta que encontrei na gravação do segundo videodança que estou produzindo para nosso projeto/encontro.