15 de jun de 2018

REDE, quatro.



13/06/18 (mas poderiam ser várias outras datas em que ensaiei terminar esta carta e não terminei)
Querida Paula,
A quanto tempo não lhe escrevo...  Este hiato me fez recordar como as cartas demandam atenção, cuidado e dedicação. Curioso... um tempo dedicado a nós mesmos e ao outro, que fomos perdendo com a velocidade enlouquecedora das novas tecnologias. Temos perdido o tempo de degustar, de apreciar, de criarmos empatia e intimidade. Ou seja: temos perdido o tempo de amar. Já não sei se esta é uma fala de uma precoce avó, que nem filhos teve, com a única função de manchar com tinta nostálgica e cheiro de mofo este papel branco, para deixá-lo em tom sépia. Ou se, do contrário, ainda mantenho alguma jovialidade com pitadas de lucidez criativa e afetiva que me façam querer crer na possibilidade de atualizar este mundo datilográfico, sem perder a capacidade de olhar para os detalhes e aprofundar-me nas relações com alguma intensidade.
A vida e seus atravessamentos às vezes nos afogam em turbilhões... Daí as questões são tantas e tão urgentes que precisamos de silêncio para ver os fragmentos se reunirem novamente e pensarmos qual o fluxo seguir neste momento. É preciso meditar, deixar os pensamentos irem e voltarem. Sentei aproximadamente nove vezes para escrever esta carta e os parágrafos pareciam não se alinhar. Até que pensei no próprio desalinhamento da vida e das inexatidões que nos compõem, como você mesmo colocou na última carta sobre sua experiência acerca do Corpomancia. Também lembrei do que você havia dito sobre a confiança nas possibilidades que podemos construir e decidi confiar no  risco e embrenhar-me na escrita final desta carta sobre a qual não espere nenhuma lógica linear. Pois bem, estas linhas são bem mais um emaranhado de questões, conexões, redes. Como esta planta que encontrei na gravação do segundo videodança que estou produzindo para nosso projeto/encontro.